Ancorado nas pesquisas e sem espaço no PP, Cícero embaralha o xadrez de 2026 na Paraíba
Ausência em evento da Federação União Progressistas, cortejos do PSD e do MDB e um relógio da oposição pressionando por definição: o que (realmente) está em jogo?

A política paraibana entrou em modo pré-campanha explícito. A sucessão de João Azevêdo (PSB) em 2026 ganhou um protagonista incontornável: Cícero Lucena (PP), prefeito de João Pessoa. Ele deixou de comparecer à convenção nacional da Federação União Progressistas (PP + União Brasil), gesto lido como sinal inequívoco de desgaste interno e de que “não há mais clima” para sua permanência no Progressistas da Paraíba. A ausência, acompanhada por seu filho, o deputado federal Mersinho Lucena (PP), foi interpretada como ato político calculado, não mero desencontro de agendas.
Ao mesmo tempo, Cícero abriu conversas em outras direções. De um lado, Gilberto Kassab (presidente nacional do PSD) entrou no radar do prefeito — com relatos de encontro em Brasília e/ou São Paulo — e sinalizações de que o PSD quer “dar play” e reorganizar sua estratégia no estado. As conversas acontecem em paralelo a cobranças públicas de Kassab ao comando estadual do PSD, hoje com Pedro Cunha Lima, por uma nominata competitiva. Esse pano de fundo dá musculatura à hipótese de filiação de Cícero ao PSD — hipótese que, a depender de qual versão prevaleça em Brasília, pode ir de bem-vinda à contestada.
Por outro lado, o MDB também acena. Relatos apontam que o prefeito recebeu convite para se filiar e, nesse arranjo, poderia se tornar o candidato de Lula na Paraíba — um lance que reorganizaria a base governista e empurraria outras siglas para uma dança de cadeiras pouco previsível. Ainda que o noticiário atribua versões diferentes sobre prazos e intensidade desse movimento, o simples fato de existir um canal MDB–Cícero já é suficiente para aumentar a pressão sobre aliados e adversários.
Por que o PP ficou estreito para Cícero
A equação intrapartidária é cristalina: o Progressistas prioriza, hoje, o projeto do vice-governador Lucas Ribeiro (PP) para 2026. Com o comando local orbitando a família Ribeiro, o espaço para uma cabeça de chapa por Cícero se estreita a cada dia. A ausência na convenção da Federação, na prática, foi uma mensagem ao PP e um convite aos demais atores para “conversarem com urgência”.
O relógio da oposição
Enquanto isso, Veneziano Vital do Rêgo (MDB) vocaliza o que todos já sentem: há prazo para a oposição se organizar e ela aguarda a definição de Cícero — e também de Adriano Galdino, presidente da ALPB, frequentemente citado como nome “posto” no debate majoritário. O grupo oposicionista lista alternativas como Pedro Cunha Lima (PSD) e Efraim Filho (União), mas a verdade é que a entrada (ou não) de Cícero reconfigura palanques e composições. Sem ele, a oposição tende a uma disputa entre projetos já conhecidos; com ele, ganha um eixo novo, com capilaridade administrativa e recall na capital.
O PSD como “ponte” — e os riscos
O PSD pode ser a ponte entre Cícero e uma coligação ampla, inclusive com setores lulistas. Mas o partido tem suas fraturas: Kassab cobra desempenho e controle, enquanto Pedro Cunha Lima tenta segurar o comando estadual e seu próprio espaço em 2026. Nesse tabuleiro, uma filiação de Cícero ao PSD pode redundar em realinhamento imediato (com Cícero ocupando o centro do projeto) ou em atrito interno caso Pedro mantenha as rédeas e dispute a mesma vaga. É esse equilíbrio que está sendo testado nas conversas em Brasília.
MDB como “atalho governista”
O convite do MDB tem uma lógica distinta: encurta o caminho para um palanque mais orgânico com o governo federal e amplia o raio de alianças municipais. O custo? Reacomodar aliados históricos de Cícero e administrar ciúmes de partidos que já apoiam Lula no estado. Se o MDB fechar com Cícero, parte da base de João Azevêdo pode migrar, e isso obrigará o PSB a escolher entre protagonizar uma composição (cedendo espaço) ou buscar outro nome competitivo na vitrine progressista.
E o PP?
Se Cícero sair, o PP tende a dobrar a aposta no projeto Lucas Ribeiro, com sustentação da família Ribeiro e da máquina que a sigla consolidou. A federação com o União Brasil acrescenta tempo de TV e estrutura, mas enfrenta o desafio de construir narrativa estadual em um cenário em que a capital, governada por Cícero, pesa. A mensagem das ausências na convenção não foi só interna: ela repercutiu no tabuleiro inteiro.
Bastidores (o que se diz nos corredores)
Agenda seletiva: a “troca” da convenção por cerimônia no interior e uma romaria de reuniões em Brasília/São Paulo foram programadas para marcar posição sem romper pontes — ainda.
Sinalização cruzada: aliados relatam que Cícero mantém três portas entreabertas — PSD, MDB e até um retorno ao PSDB — para maximizar poder de barganha e escolher o terreno mais fértil.
Efeito dominó: qualquer filiação de Cícero reorganiza nominatas proporcionais e pode deslocar quadros médios entre PSD, MDB, PP e União, mudando quem entra (ou sai) nas chapas de 2026. (Inferência a partir das negociações descritas nas fontes citadas.).
Linha do tempo recente
19–20 de agosto de 2025:
Cícero e Mersinho faltam à convenção nacional do PP/União; cresce leitura de desgaste no Progressistas.
19–21 de agosto de 2025: Kassab chama o PSD para “acertar a rota” e entra no radar de Cícero; relatos de encontro direto entre ambos.
21 de agosto de 2025: Sinalizações de convite do MDB a Cícero para ser o candidato de Lula em 2026.
O quadro, hoje
1. Cícero é o fiel da balança. Sua decisão de filiação define não só a cabeça de chapa, mas também o eixo de alianças federais/estaduais.
2. O PP segue com Lucas Ribeiro como prioridade e, sem Cícero, tende a nacionalizar a disputa para compensar o déficit na capital.
3. O PSD está em disputa interna entre comando e projeto — um “trem” em movimento que pode receber Cícero como maquinista… ou não.
4. O MDB oferece um atalho ao palanque federal, mas exigirá engenharia fina para acomodar parceiros e evitar colisões com o PSB.
5. A oposição cronometra prazos e aguarda Cícero e Galdino, com Pedro Cunha Lima e Efraim Filho como alternativas visíveis, mas dependentes do movimento do prefeito.
Em suma: 2026 na Paraíba será definido menos por discursos e mais por filiação e engenharia partidária nas próximas semanas. Cícero, hoje, tem o luxo — e o ônus — da escolha. E o relógio político já disparou.
Esdras Trajano Leal
Sousa, 21/08/2025.







COMENTÁRIOS