Eduardo Bolsonaro e o risco da política como herança familiar

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Sousa,03/02/2026

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Eduardo Bolsonaro e o risco da política como herança familiar

Ausências no Congresso, ataques às instituições e defesa de interesses privados no exterior reacendem o alerta histórico: quando o poder se transforma em patrimônio de sobrenomes, a República inteira se fragiliza.


Eduardo Bolsonaro e o risco da política como herança familiar


Eduardo Bolsonaro, ausências e ataques: a herança de um poder privatizado - Por Esdras Trajano Leal.


A trajetória recente do deputado Eduardo Bolsonaro, marcada por ausências na Câmara e pela priorização de agendas pessoais e familiares nos Estados Unidos, não é apenas um episódio isolado da política nacional. É um reflexo de um padrão histórico que atravessa séculos e geografias: o da confusão entre o poder público e os interesses privados, tão nociva para a saúde das democracias quanto para o destino das nações.


Na tradição republicana, como lembrava Cícero em Roma, “a salvação do povo deve ser a lei suprema”. Mas quando um parlamentar se ausenta de suas funções constitucionais para defender a anistia do pai e atacar instituições brasileiras em território estrangeiro, inverte-se a lógica: o interesse público é sacrificado em nome do interesse particular.


Montesquieu advertia em O Espírito das Leis: “Todo homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites.” Essa máxima ecoa de forma contundente no caso brasileiro: a insistência em manter o mandato, mesmo ausente do país, soa como tentativa de estender privilégios pessoais além dos limites institucionais.


A história latino-americana é fértil em exemplos semelhantes. A dinastia Somoza, que governou a Nicarágua por mais de quatro décadas no século XX, transformou o Estado em patrimônio familiar, subordinando as instituições ao clã. Na Argentina, o fenômeno do peronismo, com Eva e depois Isabelita Perón, também mostrou como a política pode se converter em herança de sangue, fragilizando a institucionalidade. No Haiti, François Duvalier, o “Papa Doc”, e depois seu filho Jean-Claude, o “Baby Doc”, reproduziram a mesma lógica dinástica, sufocando a democracia em nome da continuidade familiar.


Mais próximo do Brasil, em Honduras, a família Zelaya protagonizou um processo de retorno político travestido de “mudança”, mas profundamente enraizado em interesses de perpetuação pessoal. E em Cuba, a dinastia dos Castro exemplifica a fusão entre projeto familiar e aparato estatal. Esses paralelos mostram que, quando a política é apropriada por um sobrenome, o espaço público perde sua essência plural e republicana.


Hannah Arendt já dizia: “A política morre quando se converte em extensão da vida privada.” No Brasil, Eduardo Bolsonaro repete um padrão: ao invés de ser representante de uma coletividade, age como advogado de causas familiares, reduzindo o mandato a instrumento de autopreservação.


A eventual perda de mandato por faltas injustificadas, prevista para 2026, vai muito além de um detalhe regimental. Trata-se de um teste histórico: se o país permitirá que a democracia seja capturada por personalismos dinásticos ou se reafirmará o princípio basilar do republicanismo — de que o poder não é herança, mas delegação temporária do povo.


Assim como advertiu Rousseau em O Contrato Social: “O soberano, sendo formado apenas por particulares, não pode ter interesse contrário ao deles.” Quando esse equilíbrio se rompe, quando o representante deixa de se colocar a serviço do coletivo para servir a si mesmo e à sua família, o que se fragiliza não é apenas um mandato, mas a própria ideia de República.


Conclusão:


O episódio que envolve Eduardo Bolsonaro não é apenas sobre faltas no Congresso: é sobre o risco de o Brasil naturalizar dinastias políticas que tratam o mandato como bem hereditário. A República, construída a duras penas, não pode tolerar que seu espaço seja reduzido a trincheira de sobrenomes.

 

Se a sociedade e as instituições fecharem os olhos, corremos o risco de repetir o caminho de países onde a democracia se desfez lentamente, sob o peso de famílias que se eternizaram no poder. 


A pergunta que fica é dura e necessária: vamos defender a República ou aceitaremos que ela seja transformada em patrimônio de poucos?


Esdras Trajano Leal 

Sousa, 29/08/2026.







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