Editorial de Esdras Trajano Leal — "Na Mira do Tarifaço: Brasil Entre a Diplomacia e o Choque Comercial"
Com o relógio correndo e mais de 10 mil empresas em risco, o governo Lula mobiliza toda a máquina estatal e diplomática para conter o maior embate comercial com os EUA em décadas.

Faltando quatro dias para a entrada em vigor de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, impostas pelo governo de Donald Trump, o Brasil se vê encurralado entre o pragmatismo diplomático e a urgência econômica. A medida americana, que atinge setores estratégicos da economia nacional — da agroindústria à mineração — acende o alerta máximo no Palácio do Planalto. O que está em jogo não é apenas a balança comercial, mas a sobrevivência de cadeias produtivas inteiras, a manutenção de empregos e a soberania econômica do país.
Desde o anúncio feito em 9 de julho, o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e todo o corpo diplomático têm se movimentado para evitar o colapso iminente. Mas a realidade é dura: diferentemente de blocos como União Europeia, Japão e China, que conseguiram acordos para modular o impacto das tarifas, o Brasil segue sem interlocução direta com Trump. Nem mesmo uma conversa oficial entre chefes de Estado foi agendada. O isolamento diplomático é claro e preocupante.
Em um esforço de última hora, o Itamaraty encaminhou denúncia formal à Organização Mundial do Comércio, apontando violação de regras internacionais. Simultaneamente, o governo brasileiro tenta acenar com medidas de reciprocidade, ainda que saiba o risco de escalar um conflito que poderá custar caro a ambos os lados. Em Washington, senadores, diplomatas e o chanceler Mauro Vieira buscam abrir caminhos de diálogo com empresários americanos e representantes da Câmara de Comércio. A esperança é que a pressão interna nos EUA — de importadores preocupados com seus próprios prejuízos — possa mudar o rumo dessa decisão unilateral.
Enquanto isso, no Brasil, corre-se contra o tempo para mitigar os danos. O plano de contingência que será apresentado ao presidente Lula até sexta-feira prevê ações ousadas: linhas de crédito subsidiado, compras públicas para evitar estoques encalhados, fundo privado emergencial e exigência de preservação de empregos como contrapartida. Uma resposta que busca não apenas conter o impacto imediato, mas também demonstrar firmeza diante de uma agressão comercial sem precedentes.
Contudo, o contexto político interno brasileiro complica ainda mais o quadro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acusou aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro de sabotar as articulações diplomáticas, mencionando nominalmente o deputado Eduardo Bolsonaro e o influencer Paulo Figueiredo. Se confirmada, essa sabotagem se revelaria não apenas anti-nacional, mas traiçoeira diante da gravidade do momento.
O tarifaço de Trump não é apenas mais uma medida protecionista — é um ataque direto à economia brasileira. Para pequenas e médias empresas exportadoras, o golpe pode ser fatal. E mesmo para os grandes conglomerados, a capacidade de adaptação em tão pouco tempo é limitada. O governo Lula tem consciência de que não há margem para erro. A resposta precisa ser ampla, estratégica e, acima de tudo, unida.
O que se desenha nesta semana é mais que um impasse comercial: é um teste à maturidade diplomática do Brasil, à sua capacidade de defesa econômica e à coesão política diante de uma ameaça externa. O desfecho deste embate poderá não apenas redefinir as relações bilaterais com os Estados Unidos, mas também ensinar ao país lições duras — e talvez necessárias — sobre soberania, estratégia e resistência.
Se o tarifaço vier, será necessário muito mais que um plano emergencial: será preciso coragem, visão e firmeza para proteger o que é nosso. O Brasil precisa mostrar ao mundo — e a si mesmo — que não será refém de nenhum império, nem joguete de lideranças estrangeiras. Que fique claro: soberania não se negocia. Defesa nacional não se adia. E o tempo, agora, é curto.
Esdras Trajano Leal
EDY FÉ - A NOTICIA COMO ELA É.
Sousa, 28/07/2025.







COMENTÁRIOS