Por Esdras Trajano Leal – Paraíba, 440 anos de resistência, fé e identidade: uma história viva entre rios, batalhas e milagres
Feriado de 5 de agosto celebra a fundação da Paraíba e o aniversário da capital João Pessoa, homenageando Nossa Senhora das Neves. Data magna do estado une fé, cultura, política e memória do povo paraibano.

Por Esdras Trajano Leal – EDY FÉ, A Notícia Como Ela É
No dia 5 de agosto, o Estado da Paraíba inteiro entra em comunhão com a sua própria história. Mais do que uma simples pausa no calendário, o feriado estadual instituído pela Lei nº 10.601/2015 marca a fundação da Capitania da Paraíba (1585), o aniversário da cidade de João Pessoa e a celebração da padroeira da capital, Nossa Senhora das Neves.
É uma data única e simbólica, que reúne em si os principais pilares sobre os quais o povo paraibano ergueu sua trajetória: fé, resistência, identidade e memória. Trata-se da data magna da Paraíba, comemorada em todos os seus 223 municípios, com reflexos na vida social, política e espiritual do estado.
1585: Um nascimento entre rios e conflitos
A fundação da Paraíba foi tudo, menos pacífica. Em 1585, os colonizadores portugueses estabeleceram o marco inicial da Capitania, depois de duras batalhas com os povos originários da região, especialmente os potiguaras, que resistiam à dominação europeia. À época, os franceses também disputavam territórios na costa, o que deu início a uma série de confrontos armados, alianças forçadas e destruições.
O local escolhido pelos portugueses foi às margens de um rio caudaloso, que acabaria por nomear a nova capitania: o Rio Paraíba. Mas o próprio nome da terra já revela uma marca de resistência e ambiguidade. Segundo o pesquisador Elias Erckman, o nome "Paraíba" poderia significar “rio mau”, “porto ruim” ou até “mar corrompido”. Já Teodoro Sampaio o traduzia como “rio impraticável”, provavelmente devido às dificuldades de navegação e ocupação do território.
Essa imagem de algo indomável — um rio difícil, um povo forte, uma terra marcada por desafios — tornou-se parte da alma paraibana. Como ensinou Euclides da Cunha, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, e isso se aplica com profundidade à identidade da Paraíba: forjada entre espadas e enxadas, orações e sangue.
João Pessoa: entre mártires, milagres e memória
A cidade de João Pessoa, nascida como “Cidade Real de Nossa Senhora das Neves”, carrega desde seu batismo uma ligação íntima com o sagrado. A devoção à Virgem das Neves, padroeira celebrada no mesmo dia 5 de agosto, foi trazida pelos colonizadores portugueses e permanece viva no coração dos fiéis até hoje.
Segundo a tradição católica, Nossa Senhora das Neves apareceu em Roma, no século IV, como um milagre que envolveu uma inexplicável nevasca em pleno verão europeu — sinal que teria indicado o local onde a Basílica de Santa Maria Maior deveria ser construída. Desde então, ela se tornou símbolo de pureza, esperança e cuidado materno da Virgem Maria.
Com o tempo, a cidade passou a se chamar João Pessoa, em homenagem ao presidente do Estado assassinado em 1930, cuja morte impulsionou a Revolução de 1930 e alterou o rumo político do país. Ou seja, além de fé, João Pessoa representa também a luta democrática, o sangue de mártires civis e a voz de um povo que não se cala.
Data magna: feriado que une todos os paraibanos
O feriado de 5 de agosto transcendeu os limites da capital. Desde 2015, passou a ser celebrado em todo o território estadual. É um momento de pausa, sim, mas também de reflexão e afirmação de identidade.
É o dia de honrar os primeiros passos da colonização, lembrar os conflitos que deram forma ao território, venerar a padroeira, celebrar o nascimento da capital e reforçar os laços culturais de um povo que resiste ao tempo, às desigualdades, às injustiças, sobretudo, à injustiça social.
Como afirmou o poeta paraibano Augusto dos Anjos, "a vida é luta renhida", e o povo paraibano sabe disso melhor que ninguém.
Serviços e funcionamento: o que abre e fecha no estado
A data magna altera o funcionamento de vários serviços por todo o estado:
Justiça e órgãos públicos:
O Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) atua em regime de plantão judiciário entre os dias 1º e 5 de agosto. O Ministério Público da Paraíba (MPPB) e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PB) também não terão expediente na segunda e terça-feira, mantendo apenas os canais de atendimento online.
Correios e bancos:
As agências dos Correios funcionam normalmente na segunda-feira (4), mas não abrem na terça (5). O mesmo se aplica aos bancos, que voltam ao funcionamento regular na quarta-feira (6).
Comércio e shoppings:
A maioria dos shoppings centers funcionará normalmente, de acordo com escalas próprias. Já as repartições públicas estaduais e municipais estarão fechadas em todo o estado.
Transporte:
Os Veículos Leves sobre Trilhos (VLTs) em João Pessoa não funcionarão na terça-feira, retomando as atividades na quarta, das 4h30 às 19h16. A balsa de Cabedelo–Costinha terá funcionamento regular das 6h às 19h (ida) e das 6h30 às 19h30 (volta).
Uma história ainda viva
Celebrar o 5 de agosto é resgatar o sentido da existência coletiva da Paraíba. É lembrar que, mesmo nas adversidades, o povo forjou um estado de cultura rica, fé inabalável e vocação para a luta.
É uma oportunidade para os paraibanos — dos sertões aos litorais, das igrejas históricas aos assentamentos urbanos — se reconhecerem como parte de um povo que transforma dor em arte, opressão em resistência, e fé em esperança.
Como está escrito no livro de Isaías:
> "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz" (Is 9,2)
E essa luz, acesa em 1585, segue brilhando, teimosa e viva, na alma da Paraíba.
Celebrações culturais: arte e emoção para marcar os 440 anos
Além da fé, da história e da reflexão cívica, o 5 de agosto na Paraíba também é celebrado com arte, música e emoção. A data magna do estado ganha contornos ainda mais especiais com uma programação cultural diversa, pensada para reunir gerações e reafirmar a riqueza da cultura paraibana.
Entre os nomes que se apresentam na capital, o grande destaque vai para o show do Rei Roberto Carlos, que retorna à João Pessoa como parte das comemorações dos 440 anos da cidade. Ícone da música brasileira, Roberto é símbolo de romantismo e memória afetiva nacional. Sua apresentação promete reunir milhares de pessoas, num momento de comoção coletiva e celebração à altura da história da cidade.
Mas o palco paraibano não brilha apenas com o Rei. A programação artística inclui nomes da música regional, artistas populares e revelações da nova geração, unindo tradição e modernidade. Entre os artistas que participam das festividades, estão:
Elba Ramalho, levando seu forró e sua devoção à terra natal;
Chico César, com sua voz engajada e poética;
Lucy Alves, representando o talento da nova música nordestina;
Grupos de cultura popular como os repentistas, quadrilhas, cocos de roda e maracatus, que ocupam as praças com sua força ancestral.
A Praça do Ponto de Cem Réis, o Parque Solon de Lucena (Lagoa) e a Estação Cabo Branco serão alguns dos pontos de encontro entre o povo e sua arte. Missas, procissões, cortejos, feiras de artesanato, espetáculos de dança e shows gratuitos compõem a identidade de um povo que não apenas lembra o passado, mas celebra a vida que continua.
Paraíba: um povo que canta, crê, luta e celebra
O 5 de agosto é mais do que uma data no calendário: é uma declaração de identidade, um ato de fé coletiva, um grito de resistência e de amor à terra. A Paraíba nasceu sob conflitos, cresceu com luta, se firmou com cultura e floresce com fé. Hoje, mais de quatro séculos depois, seu povo segue escrevendo a história com a alma viva e os olhos no futuro.
Como canta Elba Ramalho, com sua voz moldada pelo sertão:
> “Meu coração é paraíba, minha alma é nordestina / Sou o canto da esperança, sou bandeira que ilumina”.
Viva a Paraíba! Viva João Pessoa! Viva o povo que canta, crê, luta e celebra!
Esdras Trajano Leal – EDY FÉ, a notícia como ela é.
Sousa, 05/08/2025.







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